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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Poesia CESÁRIO VERDE

Para aqueles que se interessaram pela poesia de Cesário Verde, este poeta que, sendo Realista, não se prendeu nem se esgostou nisso, fica um trecho que é belíssimo por si só, e que não precisa de explicação:

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

(...)
E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais! 



Para estes que se sentiram inebriados com a presença destes versos, vale a pena conferir O Livro de Cesário Verde, principalmente os quatro primeiros poemas d'O Sentimento dum Ocidental, que foram inclusos pelo grande crítico, Massaud Moisés, em seu livro "A literatura portuguesa através dos textos". Boa leitura!

Poesia GUERRA JUNQUEIRO


A Árvore do Mal
Por baixo do azul sereno, entre a fragrância
         Dos mirtos, dos rosais,
Viviam numa doce e numa eterna infância
         Nossos primeiros pais.

Seus corpos juvenis, mais alvos do que a Lua,
         Mais puros do que os diamantes,
Conservavam ainda a virgindade nua
         Das coisas ignorantes.

Pôs Deus nesse jardim com sua mão astuta
         Ao lado da inocência
A Árvore do Mal que produzia a fruta
         Venenosa da ciência.

E, apesar de conter venenos homicidas
         E o germe do pecado,
Era Deus quem comia à noite, às escondidas,
         Esse fruto vedado.

Por isso Jeová tinha ciência infinda,
         Tinha um poder secreto,
E Adão que não provara os frutos era ainda
         Um anjo analfabeto.

Eva colheu um dia o belo fruto impuro,
         O fruto da Razão.
Nesse instante sublime Eva tinha o Futuro
         Na palma da sua mão!

O homem, abandonado a submissão covarde,
         Viu o fruto e comeu.
Esse fruto é a Luz que a Júpiter mais tarde
         Roubará Prometeu.

E ao ver igual a si a estátua que criara,
         O homem réprobo e nu,
Jeová exclamou: «Maldita seja a seara
         Cuja semente és tu!»

Veio depois a Igreja e repetiu aos crentes
         De toda a humanidade:
«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes
         Nos frutos da verdade!»

A Igreja permitia esse vedado pomo
         Somente aos sacerdotes.
Da árvore do mal fugia o mundo, como
         Os lobos dos archotes.

Se o sábio que buscava o oiro nas retortas
         Ia como um ladrão
Roubar timidamente, à noite, às horas mortas,
         Algum fruto do chão,

Tiravam-lhe da boca esse fruto daninho
         Duma maneira suave:
Atando-lhe à garganta uma corda de linho
         Suspensa duma trave.

Um dia um visionário, alma vertiginosa,
         Espírito imortal,
Foi deitar-se, que horror! à sombra temerosa
         Da Árvore do Mal.

A Igreja ao ver aquela intrépida heresia
         Lança-lhe excomunhões;
Tomba por terra um fruto... e Newton descobria
         A lei das atracções!

Sacudi, sacudi a árvore maldita,
         Que os astros tombarão,
Como se sacudisse a abóbada infinita
         Deus com a própria mão!

E quando o mundo inteiro enfim houver comido
         Até à saciedade
O fruto que lhe estava há tanto proibido,
         O fruto da Verdade,

Homens, dizei então a Jeová: -- «Tirano,
         Vai-te embora daqui!
Contruímos de novo o paraíso humano;
         Fizémo-lo sem ti.

Expulsaste do Olimpo a humanidade outrora,
         Ó déspota feroz;
Pois bem: o Olimpo é nosso, e Jeová, agora
         Expulsamos-te nós!»

                                             Guerra Junqueiro. A velhice do padre eterno

Madame Bovary - Tarefa (2º ano)

Olá, queridos alunos. Nossa tarefa da semana consiste na análise dos trechos em questão do romance fundador do Realismo, Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert. Após a leitura dos trechos, responda às questões que seguem:


Antes de se casar, julgara sentir amor; mas, como a ventura resultante desse amor não aparecia, com certeza se enganara, pensava ela. E procurava saber qual era, afinal, o significado certo, nesta vida, das palavras “felicidade”, “paixão” e “embriaguez”, que nos livros pareciam tão belas. [...]

Quanto mais próximas ficavam as coisas, mais o seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava de perto, os campos enfadonhos, os burguesinhos imbecis, a mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um caso particular em que se achava envolvida, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país da felicidade e das paixões. Confundia, no desejo, a sensualidade do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos hábitos com a delicadeza dos sentimentos.[...]

Charles gozava de boa saúde e tinha ótimo aspecto; a sua reputação estava definitivamente firmada. Os camponeses gostavam dele porque não era orgulhoso. Agradava as crianças, não entrava nunca nas tabernas e, além disso, inspirava confiança pela sua conduta. […]

[…] Charles, porém, não tinha ambições!  Um médico de Yvetot, com quem se encontrara em conferência, humilhara-o um pouco, na própria cabeceira do doente e na presença dos parentes reunidos. Quando Charles contou, à noite, esse fato, Emma exaltou-se em voz alta contra o colega. Charles sentiu-se enternecido com isso e deu-lhe um beijo acompanhado de uma lágrima. Ela, porém, estava exasperada de vergonha; a sua vontade era de espancá-lo, mas se levantou, dirigiu-se ao corredor, abriu a janela e aspirou o ar fresco, para se acalmar.

-- Pobre-diabo! Pobre-diabo! – dizia ela em voz baixa, mordendo o lábio.

Sentia-se cada vez mais irritada. A idade ia-o tornando pesadão; à sobremesa divertia-se em cortar as rolhas das garrafas vazias e, depois de comer, passada a língua pelos dentes, ao engolir a sopa, fazia um gorgolejo em cada gole e, como começasse a engordar, os olhos, já por si tão pequenos, pareciam ter sido empurrados pelas bochechas.

Emma, às vezes, metia-lhe para dentro do colete a fralda vermelha da camisa, arrumava-lhe a gravata ou punha fora as luvas desbotadas, que ele pretendia calçar; e isso não era por ele, como Charles pensava, mas por ela mesma, por expansão de egoísmo, por irritação nervosa.

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução: Enrioco Corvisieri. Porto Alegre: L&PM, 2003.

Exercícios:
1. Com o surgimento do Realismo na Europa, os romances de costumes passam a retratar as personagens e suas relações de modo mais distanciado e objetivo. No trecho acima, Emma Bovary, personagem principal do romance, mostra seu descontentamento diante da vida de casada.

a) Transcreva a passagem que revela os sentimentos de Emma em relação ao local em que vive com o marido.

b) Como ela se sente morando nessa pequena vila no interior da França? Que imagem faz do lugar?

c) De que maneira a linguagem usada traduz para o leitor os juízos de valor de Emma? 

2. Leve em consideração o seguinte trecho: "Acaso não necessita o amor, como certas plantas, terreno preparado, temperatura especial?". A partir dele, desenvolva um texto no qual você reflita acerca do significado dessa frase. Para isso, leve em consideração tanto o que se aprendeu sobre o Realismo, quanto a sua própria experiência de vida. Máximo de 15 linhas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O que é o Realismo na Literatura? (2º ano)

Olá, queridos alunos do 2º ano. Vamos ler um pouco!?

Após entendermos quais são as características do Realismo, é hora de vermos como isso se dá na prática.

Segue-se um fragmento do conto O escrivão Coimbra, do escritor realista Machado de Assis.

[...] Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, – ou depois, – um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
 

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem a outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo. Não deixou logo a irmandade; a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e com o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros e nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
 

Aos sessenta anos já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria, sim, tinha toda sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade, e depois a solidão, vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.             
                                                      ASSIS, Machado de. Machado para a juventude. Rio de Janeiro: Lia Editor S.A., 1978. Fragmento.

 Esse trecho permite-nos perceber algumas marcas típicas do estilo realista:
* descrição detalhada das ações e das razões que justificam as atitudes de personagens;
* crítica e ironia;
* descrença na religião;
* visão objetiva/ in natura sobre a realidade da vida.

E aí, surgiu alguma dúvida? Deixe uma questão abaixo que eu lhe responderei.

Um beijo e um queijo.