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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

2ª MOSTRA DE ARTES DO COC ARARAQUARA

2º MAC – MOSTRA DE ARTES DO COC 
03 out. 19h - 21h – 
TEATRO WALLACE LEAL 

ENTRE A LIBERDADE E A REPRESSÃO 

Em 2014, completamos cem anos da Grande Guerra e cinquenta do Golpe Militar no Brasil. Pensando nisso, o COC – ARARAQUARA preparou a 2ª MAC, cujos temas principais são o trabalho, a arte e o pensamento entre a liberdade e a repressão.

ATRAÇÕES:
· Espaço poesia: declamação de textos autorais e de poemas da literatura marginal brasileira;
· Exibição de vídeos sobre a questão da liberdade e da repressão;
· Mostra de artes visuais: desenhos e pinturas feitos pelos alunos;
· Esquetes teatrais abordando Política, Filosofia e Artes;
· Intervenções musicais abordando a História brasileira;
· Literatura e música: relações entre o Modernismo e a Tropicália;
· Espetáculo de dança;
· Músicas do pós-ditadura: Vandré, Raul, Legião.

Participação dos alunos do 1º e 2º anos do Ensino Médio e dos professores da instituição.

Onde: Teatro Wallace Leal. Avenida Espanha, 485, entre as ruas 3 e 4. No mesmo quarteirão da casa da cultura.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Carta a um jovem poeta

Nessa semana recebi alguns poemas de um aluno meu do 1º ano do Ensino Médio, o jovem Luca. Li, gostei, lembrei de mim quando era jovem e quando alimentava grandes esperanças em ser poeta (hoje alimento algumas boas, mas talvez não sejam mais tão "grandes").

Fiquei um tanto desconcertado de não poder dar conselhos que sejam tão bons assim, então lembrei-me de "Cartas a um jovem poeta", em que o poeta checo Rainer Maria Rilke (1875 - 1926) indica o que é possível fazer para ser, mais do que poeta, para olhar para dentro de si mesmo e encontrar aquilo que teima em se esconder. 

Se você, leitor desse blog, não quer ser poeta, creio que será melhor leitor desse post do que eu, que ainda teimo, e do que o Luca, que ainda é novo. Você, leitor, que não quer ser poeta não poderá nos julgar, entretanto, por querermos "carregar água na peneira".

Rilke fala para o Luca e para meu leitor e para mim também:

Primeira Carta de Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. 

Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento.

Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. 

Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.
(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande
estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia, 

Rainer Maria Rilke


RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e Canção morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução. Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Globo, 1983. Fragmento.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

1º ano. Leitura para o 3º Bimestre 2011

Cada grupo escolherá 6 sonetos de Vinicius de Moraes, dentre os aqui expostos, e fará uma análise interpretativa deles, tentando encontrar uma linha temática comum neles . Será necessário que se faça uma pequena análise formal, mostrando o esquema de rimas e fazendo a escansão poética.
   
Sonetos:

“Do amor total”
“De carnaval”
“De agosto”
“De fidelidade”
“De aniversário”
“De intimidade”
“À lua”
“Do maior amor”
“De Londres”
“Da mulher inútil”
“De quarta-feira de cinzas”
“Da rosa”
“De separação”
“De despedida”
“Quatro sonetos de meditação”

Após isso, cada um dos grupos escolherá um dos 4 poemas de Vinicius de Moraes e fará um vídeo (aqui vão dois links que pode ser que ajudem a montar o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=qgsJg3TzSZE&feature=related ; http://www.youtube.com/watch?v=mz8fHGHU5fM), de 3 a 4 minutos, aproximadamente, com uma interpretação de vocês sobre o texto, que será transmitido durante nossas aulas.

Os poemas são: 

“Poema enjoadinho”
“O operário em construção”
“A bomba atômica”
“O dia da criação”


Mais informações serão dadas durante as aulas.  

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Poesia CESÁRIO VERDE

Para aqueles que se interessaram pela poesia de Cesário Verde, este poeta que, sendo Realista, não se prendeu nem se esgostou nisso, fica um trecho que é belíssimo por si só, e que não precisa de explicação:

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

(...)
E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais! 



Para estes que se sentiram inebriados com a presença destes versos, vale a pena conferir O Livro de Cesário Verde, principalmente os quatro primeiros poemas d'O Sentimento dum Ocidental, que foram inclusos pelo grande crítico, Massaud Moisés, em seu livro "A literatura portuguesa através dos textos". Boa leitura!

Poesia GUERRA JUNQUEIRO


A Árvore do Mal
Por baixo do azul sereno, entre a fragrância
         Dos mirtos, dos rosais,
Viviam numa doce e numa eterna infância
         Nossos primeiros pais.

Seus corpos juvenis, mais alvos do que a Lua,
         Mais puros do que os diamantes,
Conservavam ainda a virgindade nua
         Das coisas ignorantes.

Pôs Deus nesse jardim com sua mão astuta
         Ao lado da inocência
A Árvore do Mal que produzia a fruta
         Venenosa da ciência.

E, apesar de conter venenos homicidas
         E o germe do pecado,
Era Deus quem comia à noite, às escondidas,
         Esse fruto vedado.

Por isso Jeová tinha ciência infinda,
         Tinha um poder secreto,
E Adão que não provara os frutos era ainda
         Um anjo analfabeto.

Eva colheu um dia o belo fruto impuro,
         O fruto da Razão.
Nesse instante sublime Eva tinha o Futuro
         Na palma da sua mão!

O homem, abandonado a submissão covarde,
         Viu o fruto e comeu.
Esse fruto é a Luz que a Júpiter mais tarde
         Roubará Prometeu.

E ao ver igual a si a estátua que criara,
         O homem réprobo e nu,
Jeová exclamou: «Maldita seja a seara
         Cuja semente és tu!»

Veio depois a Igreja e repetiu aos crentes
         De toda a humanidade:
«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes
         Nos frutos da verdade!»

A Igreja permitia esse vedado pomo
         Somente aos sacerdotes.
Da árvore do mal fugia o mundo, como
         Os lobos dos archotes.

Se o sábio que buscava o oiro nas retortas
         Ia como um ladrão
Roubar timidamente, à noite, às horas mortas,
         Algum fruto do chão,

Tiravam-lhe da boca esse fruto daninho
         Duma maneira suave:
Atando-lhe à garganta uma corda de linho
         Suspensa duma trave.

Um dia um visionário, alma vertiginosa,
         Espírito imortal,
Foi deitar-se, que horror! à sombra temerosa
         Da Árvore do Mal.

A Igreja ao ver aquela intrépida heresia
         Lança-lhe excomunhões;
Tomba por terra um fruto... e Newton descobria
         A lei das atracções!

Sacudi, sacudi a árvore maldita,
         Que os astros tombarão,
Como se sacudisse a abóbada infinita
         Deus com a própria mão!

E quando o mundo inteiro enfim houver comido
         Até à saciedade
O fruto que lhe estava há tanto proibido,
         O fruto da Verdade,

Homens, dizei então a Jeová: -- «Tirano,
         Vai-te embora daqui!
Contruímos de novo o paraíso humano;
         Fizémo-lo sem ti.

Expulsaste do Olimpo a humanidade outrora,
         Ó déspota feroz;
Pois bem: o Olimpo é nosso, e Jeová, agora
         Expulsamos-te nós!»

                                             Guerra Junqueiro. A velhice do padre eterno

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A POESIA (Melopeia, Fanopeia, Logopeia)

Em sentido restrito, os antigos entendiam por poesia ("poíesis") a habilidade de construir bem uma composição de palavras. É ainda esse o sentido básico do vocábulo na atualidade, que enfatiza a noção de poesia como arte de refinada construção verbal.

O objeto inventado pela poesia chama-se poema, de modo que este vem a ser um artefato, isto é, o produto acabado resultante do fazer artístico. Poema é a obra de arte verbal realizada concretamente.

Poética é o nome da disciplina que estuda a poesia e suas obras, considerando o que elas têm de específico, ou seja, aquilo que lhes é próprio: o poético. Este, por sua vez, é constituído dos elementos fundamentais do poema; o poético é matéria da poesia, é tudo aquilo de que ela pode falar e o modo como ela fala num poema.

Todos esses elementos devem ser conhecidos para que avancemos em nossos estudos.

São três os elementos básicos que constituem  um poema, tradicionalmente escrito em versos:

1) som -- elemento musical: sistema de harmonias, ritmos e melodias criados pelas palavras;

2) imagem -- dados visuais de um poema;

3) pensamento -- estrutura intelectual de escolha, combinação e disposição de palavras para a expressão de conteúdos: ideias, sensações sentimentos etc.

Esses três elementos fundamentais do poema chamam-se melopeia, fanopeia e logopeia, respectivamente.

Melopeia é a música de palavras, é o conjunto de técnicas aplicadas para criar efeitos acústicos por meio da palavras. Ela insere o poema no tempo, mas o leva a sobrepor-se à cronologia, segundo Ezra Pound (1882-1972).

Fanopeia é matéria visual do poema, é o conjunto de técnicas aplicadas para criar imagens que afetam a imaginação visual. A fanopeia configura o poema no espaço físico e imaginário, mas o faz transpor fronteiras.

Logopeia é a matéria intelectual do poema; é o elemento que se revela na sintaxe do texto, na lógica de sua organização, em sua carga semântica, nas referências e influências artísticas e culturais que contém. Por meio da logopeia o poema viaja no tempo e no espaço, dialogando com a memória da civilização.

Desse modo, chama-se poesia de melopeia àquela em que predomina o elemento sonoro, poesia de fanopeia à que tem a imagem como elemento principal e poesia de logopeia àquela em que prevalece o elemento intelectual.