Antes de se casar, julgara sentir amor; mas, como a ventura resultante desse amor não aparecia, com certeza se enganara, pensava ela. E procurava saber qual era, afinal, o significado certo, nesta vida, das palavras “felicidade”, “paixão” e “embriaguez”, que nos livros pareciam tão belas. [...]
Quanto mais próximas ficavam as coisas, mais o seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava de perto, os campos enfadonhos, os burguesinhos imbecis, a mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um caso particular em que se achava envolvida, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país da felicidade e das paixões. Confundia, no desejo, a sensualidade do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos hábitos com a delicadeza dos sentimentos.[...]
Charles gozava de boa saúde e tinha ótimo aspecto; a sua reputação estava definitivamente firmada. Os camponeses gostavam dele porque não era orgulhoso. Agradava as crianças, não entrava nunca nas tabernas e, além disso, inspirava confiança pela sua conduta. […]
[…] Charles, porém, não tinha ambições! Um médico de Yvetot, com quem se encontrara em conferência, humilhara-o um pouco, na própria cabeceira do doente e na presença dos parentes reunidos. Quando Charles contou, à noite, esse fato, Emma exaltou-se em voz alta contra o colega. Charles sentiu-se enternecido com isso e deu-lhe um beijo acompanhado de uma lágrima. Ela, porém, estava exasperada de vergonha; a sua vontade era de espancá-lo, mas se levantou, dirigiu-se ao corredor, abriu a janela e aspirou o ar fresco, para se acalmar.
-- Pobre-diabo! Pobre-diabo! – dizia ela em voz baixa, mordendo o lábio.
Sentia-se cada vez mais irritada. A idade ia-o tornando pesadão; à sobremesa divertia-se em cortar as rolhas das garrafas vazias e, depois de comer, passada a língua pelos dentes, ao engolir a sopa, fazia um gorgolejo em cada gole e, como começasse a engordar, os olhos, já por si tão pequenos, pareciam ter sido empurrados pelas bochechas.
Emma, às vezes, metia-lhe para dentro do colete a fralda vermelha da camisa, arrumava-lhe a gravata ou punha fora as luvas desbotadas, que ele pretendia calçar; e isso não era por ele, como Charles pensava, mas por ela mesma, por expansão de egoísmo, por irritação nervosa.
FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução: Enrioco Corvisieri. Porto Alegre: L&PM, 2003.
Exercícios:
1. Com o surgimento do Realismo na Europa, os romances de costumes passam a retratar as personagens e suas relações de modo mais distanciado e objetivo. No trecho acima, Emma Bovary, personagem principal do romance, mostra seu descontentamento diante da vida de casada.a) Transcreva a passagem que revela os sentimentos de Emma em relação ao local em que vive com o marido.
b) Como ela se sente morando nessa pequena vila no interior da França? Que imagem faz do lugar?
c) De que maneira a linguagem usada traduz para o leitor os juízos de valor de Emma?
2. Leve em consideração o seguinte trecho: "Acaso não necessita o amor, como certas plantas, terreno preparado, temperatura especial?". A partir dele, desenvolva um texto no qual você reflita acerca do significado dessa frase. Para isso, leve em consideração tanto o que se aprendeu sobre o Realismo, quanto a sua própria experiência de vida. Máximo de 15 linhas.