Nessa semana recebi alguns poemas de um aluno meu do 1º ano do Ensino Médio, o jovem Luca. Li, gostei, lembrei de mim quando era jovem e quando alimentava grandes esperanças em ser poeta (hoje alimento algumas boas, mas talvez não sejam mais tão "grandes").
Fiquei um tanto desconcertado de não poder dar conselhos que sejam tão bons assim, então lembrei-me de "Cartas a um jovem poeta", em que o poeta checo Rainer Maria Rilke (1875 - 1926) indica o que é possível fazer para ser, mais do que poeta, para olhar para dentro de si mesmo e encontrar aquilo que teima em se esconder.
Se você, leitor desse blog, não quer ser poeta, creio que será melhor leitor desse post do que eu, que ainda teimo, e do que o Luca, que ainda é novo. Você, leitor, que não quer ser poeta não poderá nos julgar, entretanto, por querermos "carregar água na peneira".
Rilke fala para o Luca e para meu leitor e para mim também:
Primeira Carta de Rainer Maria Rilke
Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,
Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente.
Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento.
Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente.
Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.
(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.
Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande
estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.
Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e Canção morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução. Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Globo, 1983. Fragmento.
"Ver não é o mesmo que olhar, assim como ouvir não é o mesmo que escutar. Ver envolve apenas o esforço de abrir os olhos; olhar significa abrir a mente e usar o intelecto. Olhar uma pintura [ou um poema] é como partir para uma viagem." Robert Cumming
Digite aqui o que você precisa
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Meu blog é neutro em CO2!
Olá pessoas, como vocês sabem eu sou educador. E por educador eu entendo aquele que vive para além da própria vida, do próprio umbigo. Por isso, creio que todos os que não se dedicam a APENAS o prazer e o gozo próprios são educadores.
Se é assim, vou mudar meus cumprimentos: Olá, educadores!
Há pouco li mais uma vez o poema O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa. Minha ideia com esse post era apenas sugerir a leitura, mas surgiu outro ponto importante: a GUIATO planta uma árvore para cada blog que insira o selo "Meu blog é neutro em CO2" na própria página, contando com o apoio do Instituto Brasileiro de Florestas (IBF) e de outras organizações.
Não escrevo este post para que as pessoas venham me dar os parabéns pela atitude. Não tenho essa pretensão. Mas, como expus no primeiro parágrafo, sou educador e preciso tentar contagiar todos aqueles que confiam naquilo que digo.
Como foi Fernando Pessoa quem motivou essa ação, vá lá o poema:
O Tejo é mais belo
que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes
navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para
o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia
não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro
Meu Blog é neutro em CO2, neutralize o seu também. Saiba como.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Toda a arte é inútil!
Vocês já sabem o que penso sobre arte: para mim ela é estopim do inútil que nos faz inverter a relação utilitarista que temos com o mundo ou, em outras palavras, arte é a revalorização das coisas que não precisam de dinheiro para serem belas.
Mas, como minha opinião não importa tanto, talvez valha a pena ler o prefácio do livro de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray.
O artista é o criador de coisas belas.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que leem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.
Se quiser ler o livro todo, clique aqui!
Você concorda com essa visão de arte? Deixe sua opinião nos comentários e trocaremos uma ideia.
Um beijo e um queijo.
Mas, como minha opinião não importa tanto, talvez valha a pena ler o prefácio do livro de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray.
O artista é o criador de coisas belas.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que leem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.
Se quiser ler o livro todo, clique aqui!
Você concorda com essa visão de arte? Deixe sua opinião nos comentários e trocaremos uma ideia.
Um beijo e um queijo.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Hìfen - seu safado!
Senhores, há aí um trabalho do professor Roberto Sarmento Lima, disponível em aqui.
De qualquer forma, para os interessados, fiquem à vontade para consultar esse bem extenso trabalho do professor.
O
uso do hífen segundo o Acordo Ortográfico
De qualquer forma, para os interessados, fiquem à vontade para consultar esse bem extenso trabalho do professor.
O
uso do hífen segundo o Acordo Ortográfico
Sistematização feita por Roberto Sarmento
Lima
De uso controvertido desde
sempre, o emprego do hífen, mesmo com as novas regras definidas pelo recente
Acordo Ortográfico, continua criando dificuldades para a compreensão do usuário
da língua portuguesa. Assim, pensei, neste documento, disciplinar tal uso,
procurando sistematizar essa questão de forma mais clara e didática.
Para
tal propósito, dividirei a discussão do seu emprego em duas etapas, sob os
seguintes rótulos gerais: (1) Usa-se o hífen; e (2) Não se usa o
hífen. Em cada seção, aparecem exemplos e, às vezes, algumas justificativas
consideradas necessárias ao esclarecimento dos tópicos apresentados. Vejamos:
1. USA-SE O HÍFEN:
1.1.
Continua a ser
usado o hífen em casos de composição por justaposição. Note-se que, nesse caso
específico, não entra em questão a derivação como processo formador de
palavras, com seus prefixos e falsos prefixos — situação que, aliás, exige
outra compreensão —, mas tão-somente os termos compostos.
Desse
modo, persiste o hífen em palavras compostas formadas por:
1.1.1. substantivo
+ substantivo: pombo-correio; médico-cirurgião;
tenente-coronel; decreto-lei; arco-íris; turma-piloto; ano-luz
1.1.2. substantivo + adjetivo: amor-perfeito; guarda-noturno;
cajá-mirim; obra-prima; capitão-mor; conta-corrente; erva-doce
1.1.3. adjetivo
+ adjetivo: azul-escuro; russo-americano;
político-social
1.1.4. adjetivo
com forma reduzida + adjetivo: ítalo-brasileiro (italiano
e brasileiro); hispano-americano (hispânico
e americano); luso-brasileiro (lusitano
e brasileiro); afro-asiático (africano
e asiático); afro-lusitano (africano
e lusitano)
Observação: Interessante
notar que o composto “afrodescendente”, que aparentemente se encaixa na regra
deste item, continua do mesmo jeito, sem hífen. É que, nesse caso, a redução de
“africano” (“afro”) não indica duas etnias, como em “afro-asiático” ou em
“afro-lusitano”, querendo apenas dizer que certo indivíduo descende de
africano. O termo “afro” aí age adjetivamente. Da mesma forma e pela mesma
razão elimina-se o hífen em “eurocomunista” ou em “francofilia” (ao contrário
de “euro-africano” e de “franco-russo”, em que aparecem nitidamente duas
nacionalidades ou duas etnias).
1.1.5. numeral
+ substantivo: primeiro-ministro; primo-infecção;
segunda-feira
1.1.6. verbo
+ substantivo: conta-gotas; guarda-roupa;
toca-discos; finca-pé
1.1.7. substantivos
unidos por preposição: pé-de-moleque; pão-de-ló;
mão-de-obra
Observação: Aqui,
no item 1.1.7, a persistência do hífen é necessária, pois serve para fazer a
distinção entre, por exemplo, o doce conhecido como “pé-de-moleque”, resultado
lexical de matiz metafórico e já gramaticalizado, e o pé de um menino chamado
pelas pessoas de moleque, “pé de moleque”. Nessa segunda situação são
permitidas a inclusão de termo, como se pode ver em “pé grande de
moleque”, ou a transformação da preposição “de” em uma contração, como em “pé daquele
moleque” ou “pé do moleque”, o que evidencia não se tratar de
composto.
1.1.8. verbos
ou substantivos repetidos: quero-quero; ruge-ruge;
ruge-ruge; tico-tico
Observações gerais:
1.
Nada mudou em relação ao que era, antes do Acordo,
nos oito casos acima explicitados.
2. Não
aparece aí nenhum prefixo; trata-se só de termos — de base nominal, adjetival,
numeral ou verbal — formados pelo processo de composição por justaposição. E a
justaposição de palavras, sem incluir jamais prefixos ou falsos prefixos, é que
determina, salvo algumas exceções, que as palavras do conjunto se separem por
hífen.
3. Em
sua maior parte, as palavras unidas pelo hífen têm plena autonomia na língua,
podendo encontrar-se separadamente em contextos verbais diversos e com sentidos
variados: “Vou na quinta à escola, e
não no sábado”; “Dê-me a terça parte
do que arrecadar”; “O pombo voa”; “O pão está bom”; “A infecção
durou muito tempo”; “O americano
curte muito o Brasil”; “O guarda me
parou na rua”; “Ele guarda tudo nos
armários”; “Quero água”; “A obra que você escreveu é sofrível”; “O médico é bom nos seus diagnósticos” etc.
4. Chama
atenção, no Acordo, entretanto, que palavras como “manda-chuva” e “pára-quedas”
(item 1.1.6) perderam extraordinariamente o hífen, passando a grafar-se
“mandachuva” e “paraquedas”. Da mesma forma, as antigas formas “pára-lama”,
“pára-choque” e “pára-vento” passaram a “paralama”, “parachoque” e “paravento”.
(O conjunto musical, liderado por Herbert Vianna, terá de se ajustar à nova
regra, passando a grafar “Paralamas do sucesso”. Ou, por ser uma marca, já era
grafado assim e assim deverá se manter, à revelia das alterações gráficas?)
Alegam os gramáticos que tais compostos perderam a noção de composição.
Pode-se, no entanto, perguntar: e por que perderam? E, a ser assim, por que
“guarda-chuva” ou “para-brisa” continuam a ter o hífen? Trata-se de uma
inconsistência do Acordo Ortográfico.
5.
Fato que também chama atenção — por não ter sido
resolvido pelo Acordo — é que convivem, lado a lado, as chamadas locuções
substantivas, adjetivas, adverbiais e
prepositivas, às vezes com hífen, às vezes sem ele, havendo até desacordo entre
os melhores dicionaristas do país. Por exemplo, o dicionário Aurélio grafa
“dona-de-casa”, com hifens, enquanto o Houaiss registra “dona de casa”,
sem hifens. Dentro desse capítulo escrevem-se sem hífen “cão de guarda”, “fim
de semana”, “café com leite”, “estrada de ferro”, “pão de mel”, “pão com
manteiga”, “sala de jantar”, “cor de vinho”, “à vontade”, “acerca de”, ao passo
que se escrevem com hífen, sem que se saiba exatamente por quê,
“água-de-colônia”, “arco-da-velha”, “cor-de-rosa”, “mais-que-perfeito”,
“pé-de-meia”, “ao-deus-dará”, “à queima-roupa”. O jeito é, a continuar assim,
recorrer à velha decoreba como forma de não se enganar ao escrever.
6.
Tratando ainda das locuções, a que mais tem sido
alvo de engano é a locução adjetiva “à-toa”, que sempre tem hífen para poder
diferenciar-se da homônima adverbial “à toa”, sem hífen. Em frases figés como
“Não é à-toa que...”, a imprensa nacional e as grandes publicações brasileiras
não têm usado o hífen, tratando essa locução adjetiva como adverbial. Note-se
que, no lugar dessa locução, nesse tipo de construção, é sempre possível usar
um adjetivo, e nunca um advérbio: “Não é casual que...”, ou “Não é fortuito
que...”, ou, ainda, “Não é indiferente que...”. Sobre essa
particularidade os dicionaristas e gramáticos têm-se calado. Particularmente
cheguei a consultar até a Academia Brasileira de Letras, que não soube
responder a contento a essa consulta.
1.2.
O hífen é usado
em topônimos que
1.2.1. contenham
os adjetivos reduzidos grão e grã: Grão-Pará;
Grã-Bretanha
1.2.2. contenham,
como forma inicial, um verbo: Passa-Quatro;
Quebra-Dentes; Traga-Mouros
1.2.3. ou,
ainda, que contenham, no meio da composição, algum artigo: Trás-os-Montes; Entre-os-Rios
1.2.4. ou
simplesmente, fora das três regras ditas há pouco, constitua já uma tradição: Guiné-Bissau
Observação: Por
isso, por não se enquadrarem nas regras enunciadas neste item, é que se grafam
sem hífen “América do Sul”, “Estados Unidos”, “Costa Rica”, “Timor Leste” etc.
1.3.
O hífen é usado
em compostos que nomeiam espécies de plantas (campo da botânica) e de animais
(campo da zoologia), estejam ou não os seus componentes unidos por preposição:
1.3.1. vegetais:
erva-do-chá; couve-flor; ervilha-de-cheiro;
abóbora-menina; favo-de-santo-inácio; bem-me-quer
Observação: No
entanto, escreve-se “malmequer”, nome de uma flor — portanto, do campo da
botânica. Isto ocorre, contrariando a regra, talvez porque essa palavra seja
formada com o auxílio do advérbio mal, que, quando funciona como
prefixo, restringe o emprego do hífen a palavras cujo segundo elemento é
iniciado por vogal ou pela letra h, mas não às outras, as demais
consoantes. Por contaminação, a grafia de “malmequer” faz perder os hifens (Ver
o item 1.4.2, logo a seguir, deste documento).
1.3.2. animais:
bem-te-vi; andorinha-do-mar; formiga-branca;
cobra-d’água; beija-flor; tigre-dentes-de-sabre
1.4.
O hífen é usado
em quase todos os termos que contenham, como se fosse originalmente um prefixo,
o advérbio bem — principalmente quando o segundo termo se inicia por
vogal ou h, mas não só —, e, apenas com essas letras, quando
funciona como prefixo o advérbio mal:
1.4.1. casos
do advérbio “bem” como prefixo: bem-humorado;
bem-estar; bem-afortunado; bem-soante; bem-nascido; bem-ditoso
Observação: Mas,
contrariando a regra geral, grafam-se “benfeitor”, “benfeitoria”, “benquerer”,
“benfazejo”.
1.4.2. casos
do advérbio “mal” como prefixo: mal-afortunado;
mal-humorado; mal-educado; mal-assombro
Observação
1: Com o advérbio bem usado
como prefixo, o hífen ocorre mesmo que a segunda palavra não seja iniciada por
vogal ou h (vejam-se os exemplos de “bem-nascido” ou “bem-soante”, com
exceção feita, porém, a “benfeitoria”, “benfeitor”, “benfazejo” e “benquerer”);
mas, no caso particular do advérbio mal, não ocorre a mesma
flexibilidade, razão por que, diante de consoantes, se escrevem “malnascido”,
“malmandado”, “malsoante”, “malsucedido”, “malparado”, “malvisto”,
“malcuidado”, “malfalante”, “malcriado”, “malconservado”, “malcasado”,
“malcheiroso”, “malcomportado”, “malmequer” etc.
Observação 2: Quando
indica o nome de uma doença, a palavra mal sempre tem hífen: “mal-canadense”,
“mal-de-lázaro”, “mal-de-luanda”. “mal-de-gota”.
Observação 3:
Registre-se a forma “mal-limpo”, que apresenta hífen por causa da consoante l,
que aparece no fim da palavra mal e no início da palavra “limpo”.
1.5.
Emprega-se
sempre o hífen quando aparecem, na formação das palavras, os elementos aquém,
além, recém e sem:
1.5.1. com o elemento aquém: aquém-mar; aquém-Pirineus
1.5.2. com o elemento além: além-mar; além-fronteiras; além-Atlântico
1.5.3. com a
preposição sem no papel de prefixo: sem-vergonha;
sem-teto; sem-cerimônia
1.6.
Emprega-se
sempre o hífen — agora em casos específicos de derivação prefixal — quando o
segundo termo se inicia ou por vogal idêntica à vogal que termina o prefixo ou
o falso prefixo ou, ainda, quando o segundo termo se inicia pela letra h:
1.6.1. caso
de vogais idênticas: micro-ondas;
anti-intelectual; contra-almirante; semi-interno; auto-observação;
infra-axilar; supra-auricular; anti--ibérico; arqui-inimigo; eletro-ótica
Observação 1: Tal
regra não serve nem para o prefixo co- nem para o prefixo re-,
aparecendo, assim, da seguinte maneira, as palavras “coordenar”, “coocupante”,
“coobrigação”, “reeducar”, “reeleição”, “reempossado”, “reescrita”.
Observação 2: Não
havendo coincidência de vogais, em outros casos também (vogal mais consoante ou
consoante mais consoante), o hífen desaparece de uma vez por todas dos
derivados, como se vê em “contracheque”, “multiuso”, “autoimunidade”,
“antiplaca”, “agroindústria”, “contrapé”, “semiárido”, “radiopatrulha”,
“microindústria”, “autopeças”, “hidroginástica”, “antivírus”, “hidroavião”,
“anticaspa”, “antiácido”, “antiferrugem”, “anteprojeto”, “autoeducativo”,
“contragolpe”, “seminovo”, “radiotáxi”, “megaoperação”, “cardiovascular”,
“infravermelho”, “macroeconomia”, “radiovitrola”, “seminu”, “antimatéria”,
“antigreve”, “microempresário”, “autoestrada”, “autodefesa”, “audiovisual”,
“hiperdesconto”, “supermercado”, “intercomunicacional”, “socioeconômico”,
“sobreloja” etc. (consultar os itens 2.2.1 e 2.2.2)
Observação 3: A
palavra “ensino-aprendizagem”, que apresenta vogais diferentes no fim de uma
palavra e no começo da outra (ensino e aprendizagem), não se
deixa reger, apesar da aparência formal, por essa regra, porque, aí, em
primeiríssimo lugar, não temos prefixo — primeira condição (ver a Observação 1
do item 1.1. deste documento) —, nem essa palavra é um composto da mesma
maneira que “hispano-americano” ou “pombo-correio”. É um fenômeno à parte,
isolado de todos aqueles que foram comentados até este momento. Note-se que as
duas palavras envolvidas — “ensino” e “aprendizagem” — têm completa autonomia
mesmo no conjunto a que pertencem, o que não é, evidentemente, o caso de
“pombo-correio”, em que “correio” define o tipo de “pombo”, qualificando-o como
se fosse um adjetivo. Aqui, em “ensino-aprendizagem”, trata-se tão-somente de
uma relação entre termos, como acontece com “estrada Rio-São Paulo”,
sequência nominal em que a cidade de São Paulo não determina a cidade do Rio de
Janeiro e vice-versa. Indicia, pois, uma relação de trajeto, nas duas direções:
do Rio para São Paulo, e de São Paulo para o Rio. O mesmo ocorre com
“ensino-aprendizagem”, em que o ensino leva ou não à aprendizagem ou a
aprendizagem direciona o tipo de ensino, mas não necessariamente. Antes da
reforma ortográfica de 2008, essas cadeias vocabulares eram unidas por
travessão, e não por hífen: “estrada Rio—São Paulo” e “processo
ensino—aprendizagem”. Com o Acordo, deu-se, acertadamente, a simplificação, com
a adoção do hífen.
1.6.2. caso
do aparecimento do h iniciando o segundo elemento da derivação: anti-higiênico; co-herdeiro; contra-harmônico;
extra-humano; super-homem; pré-história; sócio-histórico; ultra-hiperbólico;
geo-história; semi-hospitalar; sub-hepático; neo-helênico
Observação: Acontece,
porém, que há palavras cuja raiz começa por h e, mesmo assim,
aglutinaram-se ao prefixo, eliminado o h etimológico, fazendo perder o
hífen, a ponto de contrariar a regra dominante. É o caso de “desumano”,
“subumano”, “inábil”, “inumano”, de larga tradição na língua.
1.7.
Emprega-se
o hífen com palavras formadas com os prefixos circum- e pan-, quando a eles se seguem elementos
iniciados por vogal, m e n
1.7.1. com
o prefixo circum-: circum-escolar;
circum-navegação; circum-murado
1.7.2. com
o prefixo pan-: pan-americano;
pan-mágico; pan-negritude
1.8.
Emprega-se o
hífen com os prefixos pós-, pré- e pró- com algumas exceções a
essa regra:
1.8.1. com
o prefixo pós-: pós-graduação; pós-tônico
1.8.2. com
o prefixo pré-: pré-escolar; pré-datado;
pré-natal
1.8.3. com
o prefixo pró-: pró-reitor; pró-europeu;
pró-africano
Observação: Diz a
regra que tais prefixos se separam por hífen da palavra seguinte porque esta
tem vida própria e inconfundível. No entanto, ainda se escrevem “prever” (“ver”
tem vida à parte), “pospor” (idem) e “promover” (idem). A explicação deveria
ser outra: tais verbos têm larga tradição na língua e sempre se escreveram sem
hífen. No caso de “pré-escolar” ou “pró-reitor”, por exemplo, tais termos
indiciam alternância de situação e distinção semântica no caso de
simultaneidade: existem ao mesmo tempo o “reitor” e o “pró-reitor” e os cargos
não se confundem. Da mesma maneira o “escolar” e o “pré-escolar”. Há o cheque
“datado” e o “pré-datado”, que podem ser emitidos simultaneamente. Mas não se
pode, salvo melhor juízo, “ver” e “prever” ao mesmo tempo, ou “pôr” ou “pospor”
ao mesmo tempo e na mesma situação discursiva.
1.9.
Emprega-se o
hífen com os prefixos hiper-, inter- e super-, se a eles se
seguirem palavras iniciadas pela consoante r:
1.9.1. com
o prefixo hiper-: hiper-requintado
1.9.2. com
o prefixo inter-: inter-racial
1.9.3. com
o prefixo super-: super-revista
1.10.
Emprega-se
sempre hífen com o sufixo ex-, desde que o sentido seja o de estado
anterior:
1.10.1.
é o caso de ex-marido; ex-diretor;
ex-presidente; ex-primeiro-ministro
1.10.2. mas não se deve
confundir com exterior, explicar ou excomungar (no primeiro e
segundo exemplos há a ideia de movimento para fora e o prefixo está devidamente
incorporado à raiz dessas palavras, enquanto no terceiro não aparece a ideia de
uma situação anterior, mas sim aquela que passa a ser, projetivamente)
1.11.
Os sufixos de
origem tupi-guarani como –açu, -guaçu e –mirim separam-se por
hífen da palavra que os precede desde que esta termine por vogal acentuada
graficamente ou, mesmo sem o acento diacrítico, a palavra tenha uma pronúncia
que exija a distinção em relação a tais sufixos:
1.11.1.
com o sufixo –açu: andá-açu; capim-açu;
jacaré-açu
Observação: Note-se
que se deve pronunciar, em “capim-açu”, a palavra “capim” sem fazer a passagem
do som nasal para o sufixo (o que daria “capimaçu”, de som estranho, chegando
até a dificultar a decodificação imediata do composto e seu significado). Daí,
pois, o hífen, a mostrar que não se deve pronunciar fazendo a ligação fonética
entre os elementos do composto.
1.11.2.com
o sufixo –guaçu: amoré-guaçu
1.11.3.
com o sufixo –mirim: anajá-mirim; Ceará-Mirim;
Paraná-mirim
Observação: Não
se usa hífen em “leitor mirim”, por exemplo, porque nem “leitor” termina por
vogal acentuada graficamente (caso de “anajá-mirim”) nem há o risco de ocorrer
ligação fonética entre “leitor” e “mirim” (como em “capim-açu”), que são as
duas restrições da presente regra.
2. NÃO SE USA O HÍFEN
2.1. Nos casos em que o
prefixo termina por vogal e a palavra que se segue começa pelas consoantes r
ou s, tais consoantes se dobram:
2.1.1. vogal + consoante r: autorretrato; antirreligioso; Contrarreforma;
contrarregra; biorritmo; microrradiografia; radiorrelógio; autorradiografia;
arquirrival; antirracional; contrarrazão; antirracial; alvirrubro;
antirrevolucionário; anterrosto; suprarrenal
2.1.2. vogal + consoante s: antissocial; autosserviço;
minissaia; autossuficiente; antissemita; antisséptico; extrassensorial;
pseudossufixo; pseudossigla; multisserviço; contrassenso; autossugestionável;
entressafra; ultrassonografia
2.2. Não se usa o hífen
também quando o prefixo ou o falso prefixo do composto terminam por uma vogal e
o outro elemento começa por vogal diferente ou quando o segundo elemento se
inicia com consoante após uma vogal e, ainda, quando tanto o fim do prefixo
quanto o início do radical da palavra são consoantes:
2.2.1. vogal + outra vogal: antiaéreo; infraestrutura; extraescolar; radioamador;
hidroelétrica; autoinstrução; intrauterino; neoimpressionista; intraocular;
megaestrela;
2.2.2. vogal + consoante: inframencionado; hidromassagem; multivitaminado;
cardiopulmonar; antiterrorista
2.2.3. consoante + consoante: intermunicipal; hiperdesconto;
supermercado
Observação
1: Ao que consta, este item
(consoante + consoante) está restrito aos prefixos inter-, hiper- e super-.
Observação
2: Este caso se encontra na
Observação 2 do item 1.6.1 deste documento, com ampla exemplificação.
Observação
3: No nome do movimento
religioso católico Contrarreforma, como em outras ocorrências em que aparece o
“prefixo” preposicional “contra-”, há que se refletir bastante se, nesses
casos, se trata mesmo de termo derivado e não de um composto por justaposição.
Primeiro, porque a palavra preposição “contra” se acha na língua muitas vezes
usada de forma independente, substantivando-se e assumindo a flexão de número
do substantivo (como em “Os contras da Nicarágua”); segundo, porque
assume valor de raiz, tem matiz semântico, não tendo, pois, o esvaziamento de
sentido peculiar a outras preposições, como a preposição “a” ou a “de”. Por
falta, pois, de melhor reflexão sobre esse tópico, é de pensar se o melhor —
por se poder considerar tal formação um caso de composição — não seria grafar
“Contra-Reforma”, tal como era antes do Acordo Ortográfico, assim como, também,
“contra-regra”, e não “contrarregra”, como prevê o Acordo, que julga tais
palavras, as mencionadas aqui, formas derivadas.
Última
observação: O Acordo exige que, na
translineação, se deve repetir o hífen no começo da outra linha, por amor à
clareza, indicando, assim, que o hífen colocado no fim da linha realmente existe,
faz parte de um composto ou de um termo derivado, e não surgiu ocasionalmente
por causa de eventual separação silábica em fim de linha.
CONCLUSÕES:
1.
Desde a oficialização do Acordo Ortográfico, vê-se
que o hífen é, ainda hoje, mesmo com a reforma, maciçamente empregado e atende
a maioria dos casos, havendo apenas sua eliminação em duas situações muito
específicas: (1) quando, no caso amplo dos derivados, o prefixo termina por
vogal e o segundo elemento se inicia pelas consoantes r e s (caso
de “autorretrato” ou “autosserviço”); e (2) quando, entre o prefixo e o segundo
elemento, não há coincidência de vogais (“autoestrada”), ou a vogal depara com
uma consoante (“anticomunista”), ou simplesmente não há vogais, mas apenas
consoantes (“hipermercado”). A ocorrência “longa-metragem” tem hífen porque se
trata, sim, de um composto, e não de um derivado. Em princípio, todos os
compostos por justaposição têm hífen; já os derivados ora têm, ora não têm.
2.
A dúvida que possa existir quanto à eliminação ou
não do hífen se prende, portanto, apenas a casos de derivação prefixal,
e não envolve casos de composição por justaposição, em que, em geral, sempre se
apresenta hífen (assim, temos, por um lado, os compostos “hispano-americano” e
“guarda-roupa” — as exceções seriam “mandachuva”, “paraquedas”, “paralama”,
“parachoque” e “paravento” —, claros exemplos de composição por justaposição,
enquanto, por outro lado, temos “hipoícone”, sem hífen, e
“anti-intelectualismo”, com hífen, termos que exemplificam casos de derivação
prefixal).
Fontes bibliográficas usadas
para esta sistematização:
ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA: Resolução
nº 17, de 7 de maio de 2008. Recife: Construir, 2008.
AZEREDO, José Carlos de (Coord.). Escrevendo pela
nova ortografia: como usar as regras do novo Acordo Ortográfico da língua
portuguesa. São Paulo: Publifolha/Instituto Antônio Houaiss, 2008.
BORBA, Francisco S. Dicionário de usos do
português do Brasil. São Paulo: Ática, 2002.
BOSCOV, Isabela. A última do português. Veja.
São Paulo: Abril, ano 41, nº 2.093, 31 dez. 2008, p. 192-197.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo
Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. totalmente
rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário
Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
LEDUR, Paulo Flávio. Guia prático da nova
ortografia. 3. ed. rev. Porto Alegre: AGE, 2009.
LIMA, Roberto Sarmento. Estava à toa na vida. Língua
portuguesa. São Paulo: Segmento, ano 2, nº 24, out. 2007, p. 48-50.
MACHADO, Josué. Hora de remarcar os dicionários. Língua
portuguesa. São Paulo: Segmento, ano 3, nº 35, set. 2008, p. 28-32.
MANUAL DA NOVA ORTOGRAFIA. São Paulo:
Ática/Scipione, ago. 2008.
MARTINS, Eduardo. Uso do hífen. Barueri, SP:
Manole, 2006.
MONTEIRO, José Lemos de. Morfologia portuguesa. 4.
ed. rev. e ampl. Campinas: Pontes, 2002.
NAPOLI, Tatiana. Quem precisa do Acordo
Ortográfico?. Conhecimento prático língua portuguesa. São Paulo: Escala
Educacional, ano 2, nº 15, [jan./fev. 2009], p. 52-60.
NOVO Acordo entra em vigor. Língua portuguesa. São
Paulo: Segmento, ano 3, nº 39, jan. 2009, p. 16-17.
TEIXEIRA, Jerônimo. A riqueza da língua. Veja. São
Paulo: Abril, ano 40, nº 2.025, 12 set. 2007, p. 88-96.
Maceió,
11 de março de 2008.
Roberto
Sarmento Lima
sábado, 27 de abril de 2013
Eu odeio livros
Uma dica para você que tem filhos, irmãos, sobrinhos, priminhos menores: o ser humano só consegue aprender por meio do exemplo, ou seja, dê o exemplo para as crianças! Se você quer que os pequenos leiam você deve mostrar para eles que isso é importante!
Nunca se esqueça de quão gratificante é demonstrar que a vida ainda vale a pena para aqueles que acabaram de ingressar nela. Ao abrir um livro você abre novas possibilidades de vida, novas portas de ação, de comunicação e de inserção na sociedade.
Para finalizar, leia um trecho da filósofa Hannah Arendt e, em seguida, um pequeno vídeo retirado do YouTube que pode servir para muita gente que ainda não entendeu que as coisas podem e devem acontecer por meio da leitura.
"A Educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gosto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum." (Hanna Arendt)
Clique aqui: A menina que odiava livros
Um beijo e um queijo a todos!
Nunca se esqueça de quão gratificante é demonstrar que a vida ainda vale a pena para aqueles que acabaram de ingressar nela. Ao abrir um livro você abre novas possibilidades de vida, novas portas de ação, de comunicação e de inserção na sociedade.
Para finalizar, leia um trecho da filósofa Hannah Arendt e, em seguida, um pequeno vídeo retirado do YouTube que pode servir para muita gente que ainda não entendeu que as coisas podem e devem acontecer por meio da leitura.
"A Educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gosto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum." (Hanna Arendt)
Clique aqui: A menina que odiava livros
Um beijo e um queijo a todos!
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Memórias de um sargento de milícias
AVALIAÇÃO CONTÍNUA - 2º ANO
(FUVEST) Indique a
alternativa que se refere corretamente ao protagonista de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida:
a) Nele, como também em personagens menores, há o contínuo e divertido esforço de driblar o acaso das condições adversas e a avidez de gozar os intervalos da boa sorte.
b) Este herói de folhetim se dá a conhecer sobretudo nos diálogos, nos quais revela ao mesmo tempo a malícia aprendida nas ruas e o idealismo romântico que busca ocultar.
c) A personalidade assumida de sátiro é a máscara de seu fundo lírico, genuinamente puro, a ilustrar a tese da "bondade natural", adotada pelo autor.
d) Enquanto cínico, calcula friamente o carreirismo matrimonial; mas o sujeito moral sempre emerge, condenado o prõprio cinismo ao inferno da culpa, do remorso e da expiação.
e) Ele é uma espécie de barro vital, ainda amorfo, a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir, até sua transformação final em símbolo sublimado.
a) Nele, como também em personagens menores, há o contínuo e divertido esforço de driblar o acaso das condições adversas e a avidez de gozar os intervalos da boa sorte.
b) Este herói de folhetim se dá a conhecer sobretudo nos diálogos, nos quais revela ao mesmo tempo a malícia aprendida nas ruas e o idealismo romântico que busca ocultar.
c) A personalidade assumida de sátiro é a máscara de seu fundo lírico, genuinamente puro, a ilustrar a tese da "bondade natural", adotada pelo autor.
d) Enquanto cínico, calcula friamente o carreirismo matrimonial; mas o sujeito moral sempre emerge, condenado o prõprio cinismo ao inferno da culpa, do remorso e da expiação.
e) Ele é uma espécie de barro vital, ainda amorfo, a que o prazer e o medo vão mostrando os caminhos a seguir, até sua transformação final em símbolo sublimado.
(FUVEST) Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo
algibebe¹ em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao
Brasil. aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de
que o vemos empossado, o que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas
viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria de
hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia² rechonchuda e bonitona. O
Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal
apessoado, e sobretudo era maganão³. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada
à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído junto dela, e com o
ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como
se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe
também em ar de disfarce um tremando beliscão nas costas da mão esquerda. Era
isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia
de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão,
com a diferença d serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte
estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos
anos.(Manuel Antônio de
Almeida, Memórias de um sargento de milícias)
Glossário:
1algibebe: mascate, vendedor ambulante.
2 saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
3maganão: brincalhão, jovial, divertido.
2. Neste excerto, o modo pelo qual é relatado o início do relacionamento entre Leonardo e Maria
a) manifesta os sentimentos antilusitanos do autor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao refinamento dos brasileiros.
b) revela os preconceitos sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes populares, mas de maneiras respeitosa a aristocracia e o clero.
c) reduz as relações amorosas a seus aspetos sexuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo.
d) opõe-se ao tratamento idealizante e sentimental das relações amorosas, dominante do Romantismo.
e) evidencia a brutalidade das relações inter-raciais, própria do contexto colonial escravista.
Glossário:
1algibebe: mascate, vendedor ambulante.
2 saloia: aldeã das imediações de Lisboa.
3maganão: brincalhão, jovial, divertido.
2. Neste excerto, o modo pelo qual é relatado o início do relacionamento entre Leonardo e Maria
a) manifesta os sentimentos antilusitanos do autor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao refinamento dos brasileiros.
b) revela os preconceitos sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes populares, mas de maneiras respeitosa a aristocracia e o clero.
c) reduz as relações amorosas a seus aspetos sexuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo.
d) opõe-se ao tratamento idealizante e sentimental das relações amorosas, dominante do Romantismo.
e) evidencia a brutalidade das relações inter-raciais, própria do contexto colonial escravista.
3. No excerto, o narrador
incorpora elementos da linguagem usada pela maioria das personagens da obra,
como se verifica em:
a) aborrecera-se porém do negócio.
b) do que o vemos empossado.
c) rechonchuda e bonitona.
d) envergonhada do gracejo.
e) amantes tão extremosos.
a) aborrecera-se porém do negócio.
b) do que o vemos empossado.
c) rechonchuda e bonitona.
d) envergonhada do gracejo.
e) amantes tão extremosos.
4. No excerto, as
personagens manifestam uma característica única que é a:
a) disposição permanentemente alegre e bem-humorada.
b) discrepância entre a condição social humilde e a complexidade psicológica.
c) busca da satisfação imediata dos desejos.
d) mistura das raças formadoras da identidade nacional brasileira.
e) oposição entre o físico harmonioso e o comportamento agressivo.
a) disposição permanentemente alegre e bem-humorada.
b) discrepância entre a condição social humilde e a complexidade psicológica.
c) busca da satisfação imediata dos desejos.
d) mistura das raças formadoras da identidade nacional brasileira.
e) oposição entre o físico harmonioso e o comportamento agressivo.
5. Assinale a alternativa
em que aparece fragmento que se refere ao protagonista de Memórias de um Sargento de Milícias.
a) "Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado."
b) "Era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração: era o juiz que julgava e distribuía a pena."
c) "Quando passou de menino a rapaz, e chegou a saber barbear e sangrar sofrivelmente, foi obrigado a manter-se à sua custa."
d) "Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, excessivamente calvo, tinha pretensões de latinista."
e) "Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança."
a) "Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado."
b) "Era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração: era o juiz que julgava e distribuía a pena."
c) "Quando passou de menino a rapaz, e chegou a saber barbear e sangrar sofrivelmente, foi obrigado a manter-se à sua custa."
d) "Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita e chupada, excessivamente calvo, tinha pretensões de latinista."
e) "Digamos unicamente que durante todo este tempo o menino não desmentiu aquilo que anunciara desde que nasceu: atormentava a vizinhança."
domingo, 3 de fevereiro de 2013
O PEQUENO PRÍNCIPE
Aluninhos do 1º ano.
Um de nossas leituras no 1º bimestre de 2013 é a do livro "O pequeno príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry. Abaixo segue o link em pdf:
http://www.biblioteca.radiobomespirito.com/o_pequeno_principe.pdf
O outro livro que leremos, este em sala de aula, é "Auto da barca do inferno", de Gil Vicente.
http://stat.correioweb.com.br/arquivos/educacao/arquivos/GilVicente-AutodaBarcadoInferno0.pdf
Boa leitura!
Um de nossas leituras no 1º bimestre de 2013 é a do livro "O pequeno príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry. Abaixo segue o link em pdf:
http://www.biblioteca.radiobomespirito.com/o_pequeno_principe.pdf
O outro livro que leremos, este em sala de aula, é "Auto da barca do inferno", de Gil Vicente.
http://stat.correioweb.com.br/arquivos/educacao/arquivos/GilVicente-AutodaBarcadoInferno0.pdf
Boa leitura!
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