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quarta-feira, 16 de abril de 2014

DESAFIO DE ESCANSÃO e METRIFICAÇÃO

Olá, queridos alunos! Lanço-lhes um desafio em 10 questões sobre Literatura Medieval, Camões e, principalmente, sobre escansão e metrificação dos versos.
Alguns de vocês já tiveram essas aulas comigo, outros ainda não. Façam de acordo com o que conseguirem.

Bons estudos! 

Texto para o teste 1.

Se eu podess’ora meu coraçon,
Senhor1, forçar e poder-vos dizer
quanta coita2 mi fazedes sofrer
por vós, cuid’eu, assi Deus mi perdon,
que haveríades doo3 de mi.
Ca4, senhor, pero me fazedes mal
e mi nunca quisestes fazer bem,
se soubéssedes quanto mal mi vem
por vós, cuid’eu, par Deus que pod’e val5,
que haveríades doo de mi.
E, pero mi havedes gran desamor,
se soubéssedes quanto mal levei
e quanta coita, des que vos amei,
por vós, cuid’eu, per boa fé, senhor,
que haveríades doo de mi.
E mal seria se nom foss’assi.
(D. Dinis. In Portal Galego da Língua: Cantigas trovadorescas. Disponível em: http://agalgz.org)
1 – Senhor: senhora. 2 – Coita: sofrimento de amor. 3 – Doo: dó. 4 – Ca: porque. 5 – Val: valer, ajudar

1. (UFPA-PA – MODELO ENEM) – Considerando-se que o texto transcrito é uma cantiga de amor, é correto afirmar, sobre esse tipo de produção poética, que
a) o trovador, de acordo com as regras do amor cortês, ao cantar a alegria de amar, na cantiga de amor, revela em seus poemas o nome da mulher amada.
b) o homem, nesse tipo de composição poética, nutre esperanças de um dia conquistar a mulher amada, que, mesmo sendo imperfeita, é objeto de desejo.
c) na lírica trovadoresca, essa modalidade de cantiga caracteriza-se por conter a confissão amorosa da mulher, que lamenta a ausência do namorado que viajou e a abandonou.
d) o trovador se coloca no lugar da mulher que sofre com a partida do amado e confessa seus sentimentos a um confidente (mãe, amiga ou algum elemento da natureza).
e) o eu lírico é um homem apaixonado que sofre e se coloca na posição de servo da “senhor”; a mulher (ou o seu amor) é vista como algo inatingível, aspecto que confere à cantiga de amor um tom lamentativo.

Texto para o teste 2.

CANTIGA SUA PARTINDO-SE
Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saüdosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
(João Ruiz de Castelo Branco)

2. Assinale a alternativa incorreta sobre o poema transcrito.
a) Os versos apresentam sete sílabas métricas.
b) O esquema de rimas é: ABAB – CDCCD – ABAB.
c) O eu lírico expressa-se por meio de hipérboles.
d) O verso utilizado representa uma antecipação renascentista.
e) A linguagem desse poema nos é mais acessível que a linguagem das cantigas trovadorescas.

3. Sobre o Humanismo, identifique a alternativa falsa.
a) Em sentido amplo, designa a atitude de valorização do homem, de seus atributos e realizações.
b) Configura-se na máxima de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”.
c) Rejeita a noção do homem regido por leis sobre naturais e opõe-se ao misticismo.
d) Designa tanto uma atitude filosófica in temporal quanto um período específico da evolução da cultura ocidental.
e) Fundamenta-se na noção bíblica de que o homem é pó e ao pó retornará, e de que só a transcendência liberta o homem de sua insignificância terrena.

(UNESP-2014) As questões a seguir abordam um poema de Raul de Leoni (1895- 1926):

A ALMA DAS COUSAS SOMOS NÓS...
Dentro do eterno giro universal
Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente,
Mas, se nesse vaivém tudo parece igual
Nada mais, na verdade,
Nunca mais se repete exatamente...

Sim, as cousas são sempre as mesmas na corrente
Que no-las leva e traz, num círculo fatal;
O que varia é o espírito que as sente
Que é imperceptivelmente desigual,
Que sempre as vive diferentemente,
E, assim, a vida é sempre inédita, afinal...
Estado de alma em fuga pelas horas,
Tons esquivos e trêmulos, nuanças
Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris
Da sensibilidade furta-cor...
E a nossa alma é a expressão fugitiva das cousas
E a vida somos nós, que sempre somos outros!...
Homem inquieto e vão que não repousas!
Para e escuta:
Se as cousas têm espírito, nós somos
Esse espírito efêmero das cousas,
Volúvel e diverso,
Variando, instante a instante, intimamente,
E eternamente,
Dentro da indiferença do Universo!...
(Luz mediterrânea, 1965.)

4. Embora pareça constituído de versos livres modernistas, o poema em questão ainda segue a versificação medida, combinando versos de diferentes extensões, com predomínio dos de doze e dez sílabas métricas. Assinale a alternativa que indica, na primeira estrofe, pela ordem em que surgem, os versos de dez sílabas métricas, denominados decassílabos.

a) 1 e 5.
b) 3 e 4.
c) 1, 2 e 3.
d) 2 e 3.
e) 1, 3 e 5

5. Considerando o eixo temático do poema e o modo como é desenvolvido, verifica-se que nele se faz uma reflexão de fundo

a) estético.
b) político.
c) religioso.
d) filosófico.
e) científico

(UNESP - 2012) Instrução: As questões de números 6 e 7 tomam por base um poema de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).

18

Não vês aquele velho respeitável,
que à muleta encostado,
apenas mal se move e mal se arrasta?
Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo,
o tempo arrebatado,
que o mesmo bronze gasta!
Enrugaram-se as faces e perderam
seus olhos a viveza:
voltou-se o seu cabelo em branca neve;
já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,
nem tem uma beleza
das belezas que teve.
Assim também serei, minha Marília,
daqui a poucos anos,
que o ímpio tempo para todos corre.
Os dentes cairão e os meus cabelos.
Ah! sentirei os danos,
que evita só quem morre.
Mas sempre passarei uma velhice
muito menos penosa.
Não trarei a muleta carregada,
descansarei o já vergado corpo
na tua mão piedosa,
na tua mão nevada.
As frias tardes, em que negra nuvem
os chuveiros não lance,
irei contigo ao prado florescente:
aqui me buscarás um sítio ameno,
onde os membros descanse,
e ao brando sol me aquente.
Apenas me sentar, então, movendo
os olhos por aquela
vistosa parte, que ficar fronteira,
apontando direi: — Ali falamos,
ali, ó minha bela,
te vi a vez primeira.
Verterão os meus olhos duas fontes,
nascidas de alegria;
farão teus olhos ternos outro tanto;
então darei, Marília, frios beijos 
na mão formosa e pia,
que me limpar o pranto.
Assim irá, Marília, docemente
meu corpo suportando
do tempo desumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marília
quem, sentida, chorando
meus baços olhos cerra.
(Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu e mais poesias. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1982.)

06. Assinale a alternativa que indica a ordem em que os versos de dez e de seis sílabas se sucedem nas oito estrofes do poema.

(A) 6, 10, 6, 6, 10, 10.
(B) 10, 6, 10, 10, 6, 6.
(C) 10, 10, 6, 10, 6, 6.
(D) 10, 6, 10, 6, 10, 6.
(E) 6, 10, 6, 10, 6, 6

07. Marque a alternativa em que o verso apresenta acento tônico na segunda e na sexta sílabas:

(A) o tempo arrebatado.
(B) das belezas que teve.
(C) daqui a poucos anos.
(D) e ao brando sol me aquente.
(E) na mão formosa e pia.

(UNESP - 1998) INSTRUÇÃO: As questões de números 07 a 10 tomam por base uma passagem do Canto III de Os Lusíadas, de Luís de Camões (1524?-1580), um fragmento do poema épico Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima (1893-1953), e a letra do fado moderno português Formosa Inês, de Rosa Lobato de Faria, gravado pelo intérprete moçambicano Paulo Bragança.

EPISÓDIO DE INÊS DE CASTRO
Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e di[g]no da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Que de[s]pois de ser morta foi Rainha.

Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fru[i]to,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxu[i]to,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. in: Obra Completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963, p. 86-7.

MUSA INÊS
Estavas linda Inês posta em repouso
Mas aparentemente bela Inês;
Pois de teus olhos lindos já não ouso
Fitar o torvelinho que não vês,
O suceder dos rostos cobiçoso
Passando sem descanso sob a tez;
Que eram tudo memórias fugidias,
Máscaras sotopostas que não vias.

Tu, só tu, puro amor e glória crua,
Não sabes o que à face traduzidas.
Estavas, linda Inês, aos olhos nua,
Transparente no leito em que jazias.
Que a mente costumeira não conclua,
Nem conclua da sombra que fazias,
Pois, Inês em repouso é movimento,
Nada em Inês é inanimado e lento.

As fontes dulçurosas desta ilha
Promanam da rainha viva-morta;
O punhal que a feriu é doce tília
De que fez a atra brisa santa porta,
E em cujos ramos suave se enrodilha,
E segredos de amor ao céu transporta.
Não há na vida amor que em vão termine,
Nem vão esquecimento que o destine.
LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu.in: Poesia – 3. Rio de Janeiro: INL/Aguilar, 1974, p.97.

FORMOSA INÊS
Mário Pacheco / Rosa Lobato de Faria

Antiga como a sina dos amantes,
A audácia de morder o infinito,
Acesa pelas noites delirantes,
Paixão que se fez lenda e se fez mito.

Depois foram razões que o Reino tece,
Foi o dia mais triste, o mais maldito,
A espada ao alto erguida e foi a prece,
Amor desfeito em sangue... e foi o grito.

D. Pedro, desvairado brada e clama,
Leva da terra em terra a sua amada,
Não tem morada certa, pois quem ama,
Saudade tem por única morada.

Da morta, fez rainha, porque é louco,
Porque é amante e rei e português,
E eu que te cantei e sou tão pouco,
Também te beijo a mão formosa Inês.
in: O Mar – A Música dos Povos de Língua Portuguesa. São Paulo: Oboré, ENL CD001, 1997.

07. A morte de Inês de Castro, no ano de 1355, e as circunstâncias trágicas que a envolvem têm sido um dos temas amorosos mais caros aos escritores portugueses, justamente por simbolizar aspectos radicais do sentimentalismo lusitano. Inês era uma formosa dama castelhana, que acompanhara a infanta D. Constança quando esta chegou a Portugal para casar-se com o príncipe-herdeiro D. Pedro. Já casado com Constança,
Pedro se apaixona por Inês, o que desperta iras e intrigas na Corte. Essa situação se complica após a morte de
Constança, e culmina com o assassinato de Inês por ordem do rei D. Afonso IV, pai de D. Pedro. Tempos depois, já rei de Portugal, D. Pedro realiza cruel vingança contra os assassinos de sua amada, e jura que era casado clandestinamente com D. Inês. Tomando por base esses fatos históricos e lendários, releia atentamente a letra do fado Formosa Inês e, a seguir,

a) aplicando-se em integrar seu melhor desempenho de análise e capacidade de síntese, e tendo em vista o contexto indicado acima, interprete o segundo verso da última estrofe;

b) como parte da resposta anterior, aponte o efeito significativo dado pela repetição do conectivo “e”.

08. Considerando que a poesia do classicismo português é altamente simétrica e regular, releia as estrofes de Camões e Jorge de Lima e, a seguir:

a) Aponte, em Invenção de Orfeu, dois processos que revelem a mesma simetria e regularidade observável no poema camoniano. Utilize, para isso, os seus conhecimentos em escansão poética e em

b) Indique, em Se dizem, fero Amor, que a sede tua (de Camões) e Estavas, linda Inês, aos olhos nua, (de Jorge de Lima), quais acentos de intensidade (tonicidade fonética) proporcionam o mesmo ritmo a esses versos.

09. As estrofes de Camões apresentam quatro palavras com uma letra grafada entre colchetes: di[g]no, de[s]pois, fru[i]to e enxu[i]to. Com esse proceder, o editor chama nossa atenção para o fato de podermos ler digno ou dino, depois ou despoisfruto ou fruito, enxuto ou enxuito, variantes que coexistiram durante muito tempo. A evolução da Língua Portuguesa culta consagrou as formas digno, depois, fruto e enxuto embora, no falar de algumas regiões, ainda se conservem despois, fruito, enxuito e escuito. Com base neste comentário:

a) Responda quais as variantes – fruto ou fru[i]to, enxuto ou enxu[i]to – foram efetivamente utilizadas por Camões na última estrofe.

b) Justifique sua resposta apontando o procedimento versificatório (escansão poética) que lhe permitiu chegar a essa conclusão.

10. O infortúnio amoroso de D. Pedro e Inês de Castro, como já vimos, atravessa o tempo por obra de grandes escritores portugueses (além de brasileiros, espanhóis e franceses). Diversamente interpretado, se faz presente em todas as épocas e gêneros literários, às vezes tendo-se como fonte as antigas crônicas de Lopes de Ayala, Fernão Lopes e Rui de Pina, às vezes tendo como inspiração obras de outros clássicos portugueses.
Camões deve ter-se inspirado nas trovas de Garcia de Resende (Cancioneiro Geral, 1516) para reanimar o tema nessa passagem de Os Lusíadas. Com base nesta informação, releia atentamente os textos de Camões e Jorge de Lima e, a seguir:

a) Explique por que é possível concluir que o escritor brasileiro Jorge de Lima teve como fonte a abordagem do tema feita por Luís de Camões e não por outro escritor ou historiador.

b) Interprete o sentido figurado do signo “repouso” no primeiro verso de Jorge de Lima.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Carta a um jovem poeta

Nessa semana recebi alguns poemas de um aluno meu do 1º ano do Ensino Médio, o jovem Luca. Li, gostei, lembrei de mim quando era jovem e quando alimentava grandes esperanças em ser poeta (hoje alimento algumas boas, mas talvez não sejam mais tão "grandes").

Fiquei um tanto desconcertado de não poder dar conselhos que sejam tão bons assim, então lembrei-me de "Cartas a um jovem poeta", em que o poeta checo Rainer Maria Rilke (1875 - 1926) indica o que é possível fazer para ser, mais do que poeta, para olhar para dentro de si mesmo e encontrar aquilo que teima em se esconder. 

Se você, leitor desse blog, não quer ser poeta, creio que será melhor leitor desse post do que eu, que ainda teimo, e do que o Luca, que ainda é novo. Você, leitor, que não quer ser poeta não poderá nos julgar, entretanto, por querermos "carregar água na peneira".

Rilke fala para o Luca e para meu leitor e para mim também:

Primeira Carta de Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. 

Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento.

Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. 

Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.
(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande
estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia, 

Rainer Maria Rilke


RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e Canção morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução. Cecília Meireles. Rio de Janeiro: Globo, 1983. Fragmento.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Meu blog é neutro em CO2!

Olá pessoas, como vocês sabem eu sou educador. E por educador eu entendo aquele que vive para além da própria vida, do próprio umbigo. Por isso, creio que todos os que não se dedicam a APENAS o prazer e o gozo próprios são educadores.

Se é assim, vou mudar meus cumprimentos: Olá, educadores!

Há pouco li mais uma vez o poema O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, de Alberto Caeiro/ Fernando Pessoa. Minha ideia com esse post era apenas sugerir a leitura, mas surgiu outro ponto importante: a GUIATO planta uma árvore para cada blog que insira o selo "Meu blog é neutro em CO2" na própria página, contando com o apoio do Instituto Brasileiro de Florestas (IBF) e de outras organizações.

Não escrevo este post para que as pessoas venham me dar os parabéns pela atitude. Não tenho essa pretensão. Mas, como expus no primeiro parágrafo, sou educador e preciso tentar contagiar todos aqueles que confiam naquilo que digo.   

Como foi Fernando Pessoa quem motivou essa ação, vá lá o poema:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios 
E navega nele ainda,
 
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
                            Alberto Caeiro

Meu Blog é neutro em CO2, neutralize o seu também. Saiba como.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Toda a arte é inútil!

Vocês já sabem o que penso sobre arte: para mim ela é estopim do inútil que nos faz inverter a relação utilitarista que temos com o mundo ou, em outras palavras, arte é a revalorização das coisas que não precisam de dinheiro para serem belas.
Mas, como minha opinião não importa tanto, talvez valha a pena ler o prefácio do livro de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray.

  O artista é o criador de coisas belas. 
  O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista. 
  O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas. 
  A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia. 
  Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito. 
  Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, para esses há esperança. 
  Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza. 
  Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo. 
  A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho. 
  A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho. 
  A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas. 
  Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável. 
  Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo. 
  Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo. 
  Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que leem o símbolo, fazem-no a expensas suas. 
  O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida. 
  A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital. 
  Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo. 
  Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. 
  Toda a arte é completamente inútil.

Se quiser ler o livro todo, clique aqui!

Você concorda com essa visão de arte? Deixe sua opinião nos comentários e trocaremos uma ideia.
Um beijo e um queijo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Hìfen - seu safado!

Senhores, há aí um trabalho do professor Roberto Sarmento Lima, disponível em aqui.

De qualquer forma, para os interessados, fiquem à vontade para consultar esse bem extenso trabalho do professor.

O uso do hífen segundo o Acordo Ortográfico

                                             Sistematização feita por Roberto Sarmento Lima



         De uso controvertido desde sempre, o emprego do hífen, mesmo com as novas regras definidas pelo recente Acordo Ortográfico, continua criando dificuldades para a compreensão do usuário da língua portuguesa. Assim, pensei, neste documento, disciplinar tal uso, procurando sistematizar essa questão de forma mais clara e didática.
            Para tal propósito, dividirei a discussão do seu emprego em duas etapas, sob os seguintes rótulos gerais: (1) Usa-se o hífen; e (2) Não se usa o hífen. Em cada seção, aparecem exemplos e, às vezes, algumas justificativas consideradas necessárias ao esclarecimento dos tópicos apresentados. Vejamos:




1.     USA-SE O HÍFEN:


1.1.           Continua a ser usado o hífen em casos de composição por justaposição. Note-se que, nesse caso específico, não entra em questão a derivação como processo formador de palavras, com seus prefixos e falsos prefixos — situação que, aliás, exige outra compreensão —, mas tão-somente os termos compostos.
Desse modo, persiste o hífen em palavras compostas formadas por:


1.1.1.     substantivo + substantivo: pombo-correio; médico-cirurgião; tenente-coronel; decreto-lei; arco-íris; turma-piloto; ano-luz
1.1.2.     substantivo + adjetivo: amor-perfeito; guarda-noturno; cajá-mirim; obra-prima; capitão-mor; conta-corrente; erva-doce
1.1.3.     adjetivo + adjetivo: azul-escuro; russo-americano; político-social
1.1.4.     adjetivo com forma reduzida + adjetivo: ítalo-brasileiro (italiano e brasileiro); hispano-americano (hispânico e americano); luso-brasileiro (lusitano e brasileiro); afro-asiático (africano e asiático); afro-lusitano (africano e lusitano)
Observação: Interessante notar que o composto “afrodescendente”, que aparentemente se encaixa na regra deste item, continua do mesmo jeito, sem hífen. É que, nesse caso, a redução de “africano” (“afro”) não indica duas etnias, como em “afro-asiático” ou em “afro-lusitano”, querendo apenas dizer que certo indivíduo descende de africano. O termo “afro” aí age adjetivamente. Da mesma forma e pela mesma razão elimina-se o hífen em “eurocomunista” ou em “francofilia” (ao contrário de “euro-africano” e de “franco-russo”, em que aparecem nitidamente duas nacionalidades ou duas etnias).
1.1.5.     numeral + substantivo: primeiro-ministro; primo-infecção; segunda-feira
1.1.6.     verbo + substantivo: conta-gotas; guarda-roupa; toca-discos; finca-pé
1.1.7.     substantivos unidos por preposição: pé-de-moleque; pão-de-ló; mão-de-obra
Observação: Aqui, no item 1.1.7, a persistência do hífen é necessária, pois serve para fazer a distinção entre, por exemplo, o doce conhecido como “pé-de-moleque”, resultado lexical de matiz metafórico e já gramaticalizado, e o pé de um menino chamado pelas pessoas de moleque, “pé de moleque”. Nessa segunda situação são permitidas a inclusão de termo, como se pode ver em “pé grande de moleque”, ou a transformação da preposição “de” em uma contração, como em “pé daquele moleque” ou “pé do moleque”, o que evidencia não se tratar de composto.
1.1.8.     verbos ou substantivos repetidos: quero-quero; ruge-ruge; ruge-ruge; tico-tico

Observações gerais:
1.      Nada mudou em relação ao que era, antes do Acordo, nos oito casos acima explicitados.
2.      Não aparece aí nenhum prefixo; trata-se só de termos — de base nominal, adjetival, numeral ou verbal — formados pelo processo de composição por justaposição. E a justaposição de palavras, sem incluir jamais prefixos ou falsos prefixos, é que determina, salvo algumas exceções, que as palavras do conjunto se separem por hífen.
3.      Em sua maior parte, as palavras unidas pelo hífen têm plena autonomia na língua, podendo encontrar-se separadamente em contextos verbais diversos e com sentidos variados: “Vou na quinta à escola, e não no sábado”; “Dê-me a terça parte do que arrecadar”; “O pombo voa”; “O pão está bom”; “A infecção durou muito tempo”; “O americano curte muito o Brasil”; “O guarda me parou na rua”; “Ele guarda tudo nos armários”; “Quero água”; “A obra que você escreveu é sofrível”; “O médico é bom nos seus diagnósticos” etc.
4.      Chama atenção, no Acordo, entretanto, que palavras como “manda-chuva” e “pára-quedas” (item 1.1.6) perderam extraordinariamente o hífen, passando a grafar-se “mandachuva” e “paraquedas”. Da mesma forma, as antigas formas “pára-lama”, “pára-choque” e “pára-vento” passaram a “paralama”, “parachoque” e “paravento”. (O conjunto musical, liderado por Herbert Vianna, terá de se ajustar à nova regra, passando a grafar “Paralamas do sucesso”. Ou, por ser uma marca, já era grafado assim e assim deverá se manter, à revelia das alterações gráficas?) Alegam os gramáticos que tais compostos perderam a noção de composição. Pode-se, no entanto, perguntar: e por que perderam? E, a ser assim, por que “guarda-chuva” ou “para-brisa” continuam a ter o hífen? Trata-se de uma inconsistência do Acordo Ortográfico.
5.      Fato que também chama atenção — por não ter sido resolvido pelo Acordo — é que convivem, lado a lado, as chamadas locuções substantivas, adjetivas,  adverbiais e prepositivas, às vezes com hífen, às vezes sem ele, havendo até desacordo entre os melhores dicionaristas do país. Por exemplo, o dicionário Aurélio grafa “dona-de-casa”, com hifens, enquanto o Houaiss registra “dona de casa”, sem hifens. Dentro desse capítulo escrevem-se sem hífen “cão de guarda”, “fim de semana”, “café com leite”, “estrada de ferro”, “pão de mel”, “pão com manteiga”, “sala de jantar”, “cor de vinho”, “à vontade”, “acerca de”, ao passo que se escrevem com hífen, sem que se saiba exatamente por quê, “água-de-colônia”, “arco-da-velha”, “cor-de-rosa”, “mais-que-perfeito”, “pé-de-meia”, “ao-deus-dará”, “à queima-roupa”. O jeito é, a continuar assim, recorrer à velha decoreba como forma de não se enganar ao escrever.
6.      Tratando ainda das locuções, a que mais tem sido alvo de engano é a locução adjetiva “à-toa”, que sempre tem hífen para poder diferenciar-se da homônima adverbial “à toa”, sem hífen. Em frases figés como “Não é à-toa que...”, a imprensa nacional e as grandes publicações brasileiras não têm usado o hífen, tratando essa locução adjetiva como adverbial. Note-se que, no lugar dessa locução, nesse tipo de construção, é sempre possível usar um adjetivo, e nunca um advérbio: “Não é casual que...”, ou “Não é fortuito que...”, ou, ainda, “Não é indiferente que...”. Sobre essa particularidade os dicionaristas e gramáticos têm-se calado. Particularmente cheguei a consultar até a Academia Brasileira de Letras, que não soube responder a contento a essa consulta.




1.2.           O hífen é usado em topônimos que


1.2.1.     contenham os adjetivos reduzidos grão e grã: Grão-Pará; Grã-Bretanha
1.2.2.     contenham, como forma inicial, um verbo: Passa-Quatro; Quebra-Dentes; Traga-Mouros
1.2.3.     ou, ainda, que contenham, no meio da composição, algum artigo: Trás-os-Montes; Entre-os-Rios
1.2.4.     ou simplesmente, fora das três regras ditas há pouco, constitua já uma tradição: Guiné-Bissau
Observação: Por isso, por não se enquadrarem nas regras enunciadas neste item, é que se grafam sem hífen “América do Sul”, “Estados Unidos”, “Costa Rica”, “Timor Leste” etc.

1.3.           O hífen é usado em compostos que nomeiam espécies de plantas (campo da botânica) e de animais (campo da zoologia), estejam ou não os seus componentes unidos por preposição:


1.3.1.     vegetais: erva-do-chá; couve-flor; ervilha-de-cheiro; abóbora-menina; favo-de-santo-inácio; bem-me-quer
Observação: No entanto, escreve-se “malmequer”, nome de uma flor — portanto, do campo da botânica. Isto ocorre, contrariando a regra, talvez porque essa palavra seja formada com o auxílio do advérbio mal, que, quando funciona como prefixo, restringe o emprego do hífen a palavras cujo segundo elemento é iniciado por vogal ou pela letra h, mas não às outras, as demais consoantes. Por contaminação, a grafia de “malmequer” faz perder os hifens (Ver o item 1.4.2, logo a seguir, deste documento).
1.3.2.     animais: bem-te-vi; andorinha-do-mar; formiga-branca; cobra-d’água; beija-flor; tigre-dentes-de-sabre





1.4.           O hífen é usado em quase todos os termos que contenham, como se fosse originalmente um prefixo, o advérbio bem — principalmente quando o segundo termo se inicia por vogal ou h, mas não só —, e, apenas com essas letras, quando funciona como prefixo o advérbio mal:


1.4.1.     casos do advérbio “bem” como prefixo: bem-humorado; bem-estar; bem-afortunado; bem-soante; bem-nascido; bem-ditoso
Observação: Mas, contrariando a regra geral, grafam-se “benfeitor”, “benfeitoria”, “benquerer”, “benfazejo”.
1.4.2.     casos do advérbio “mal” como prefixo: mal-afortunado; mal-humorado; mal-educado; mal-assombro
Observação 1: Com o advérbio bem usado como prefixo, o hífen ocorre mesmo que a segunda palavra não seja iniciada por vogal ou h (vejam-se os exemplos de “bem-nascido” ou “bem-soante”, com exceção feita, porém, a “benfeitoria”, “benfeitor”, “benfazejo” e “benquerer”); mas, no caso particular do advérbio mal, não ocorre a mesma flexibilidade, razão por que, diante de consoantes, se escrevem “malnascido”, “malmandado”, “malsoante”, “malsucedido”, “malparado”, “malvisto”, “malcuidado”, “malfalante”, “malcriado”, “malconservado”, “malcasado”, “malcheiroso”, “malcomportado”, “malmequer” etc.
Observação 2: Quando indica o nome de uma doença, a palavra mal sempre tem hífen: “mal-canadense”, “mal-de-lázaro”, “mal-de-luanda”. “mal-de-gota”.
Observação 3: Registre-se a forma “mal-limpo”, que apresenta hífen por causa da consoante l, que aparece no fim da palavra mal e no início da palavra “limpo”.




1.5.           Emprega-se sempre o hífen quando aparecem, na formação das palavras, os elementos aquém, além, recém e sem:


1.5.1. com o elemento aquém: aquém-mar; aquém-Pirineus
1.5.2. com o elemento além: além-mar; além-fronteiras; além-Atlântico
1.5.3. com a preposição sem no papel de prefixo: sem-vergonha; sem-teto; sem-cerimônia





1.6.           Emprega-se sempre o hífen — agora em casos específicos de derivação prefixal — quando o segundo termo se inicia ou por vogal idêntica à vogal que termina o prefixo ou o falso prefixo ou, ainda, quando o segundo termo se inicia pela letra h:


1.6.1.     caso de vogais idênticas: micro-ondas; anti-intelectual; contra-almirante; semi-interno; auto-observação; infra-axilar; supra-auricular; anti--ibérico; arqui-inimigo; eletro-ótica 
Observação 1: Tal regra não serve nem para o prefixo co- nem para o prefixo re-, aparecendo, assim, da seguinte maneira, as palavras “coordenar”, “coocupante”, “coobrigação”, “reeducar”, “reeleição”, “reempossado”, “reescrita”.
Observação 2: Não havendo coincidência de vogais, em outros casos também (vogal mais consoante ou consoante mais consoante), o hífen desaparece de uma vez por todas dos derivados, como se vê em “contracheque”, “multiuso”, “autoimunidade”, “antiplaca”, “agroindústria”, “contrapé”, “semiárido”, “radiopatrulha”, “microindústria”, “autopeças”, “hidroginástica”, “antivírus”, “hidroavião”, “anticaspa”, “antiácido”, “antiferrugem”, “anteprojeto”, “autoeducativo”, “contragolpe”, “seminovo”, “radiotáxi”, “megaoperação”, “cardiovascular”, “infravermelho”, “macroeconomia”, “radiovitrola”, “seminu”, “antimatéria”, “antigreve”, “microempresário”, “autoestrada”, “autodefesa”, “audiovisual”, “hiperdesconto”, “supermercado”, “intercomunicacional”, “socioeconômico”, “sobreloja” etc. (consultar os itens 2.2.1 e 2.2.2)
Observação 3: A palavra “ensino-aprendizagem”, que apresenta vogais diferentes no fim de uma palavra e no começo da outra (ensino e aprendizagem), não se deixa reger, apesar da aparência formal, por essa regra, porque, aí, em primeiríssimo lugar, não temos prefixo — primeira condição (ver a Observação 1 do item 1.1. deste documento) —, nem essa palavra é um composto da mesma maneira que “hispano-americano” ou “pombo-correio”. É um fenômeno à parte, isolado de todos aqueles que foram comentados até este momento. Note-se que as duas palavras envolvidas — “ensino” e “aprendizagem” — têm completa autonomia mesmo no conjunto a que pertencem, o que não é, evidentemente, o caso de “pombo-correio”, em que “correio” define o tipo de “pombo”, qualificando-o como se fosse um adjetivo. Aqui, em “ensino-aprendizagem”, trata-se tão-somente de uma relação entre termos, como acontece com “estrada Rio-São Paulo”, sequência nominal em que a cidade de São Paulo não determina a cidade do Rio de Janeiro e vice-versa. Indicia, pois, uma relação de trajeto, nas duas direções: do Rio para São Paulo, e de São Paulo para o Rio. O mesmo ocorre com “ensino-aprendizagem”, em que o ensino leva ou não à aprendizagem ou a aprendizagem direciona o tipo de ensino, mas não necessariamente. Antes da reforma ortográfica de 2008, essas cadeias vocabulares eram unidas por travessão, e não por hífen: “estrada Rio—São Paulo” e “processo ensino—aprendizagem”. Com o Acordo, deu-se, acertadamente, a simplificação, com a adoção do hífen.

1.6.2.     caso do aparecimento do h iniciando o segundo elemento da derivação: anti-higiênico; co-herdeiro; contra-harmônico; extra-humano; super-homem; pré-história; sócio-histórico; ultra-hiperbólico; geo-história; semi-hospitalar; sub-hepático; neo-helênico
Observação: Acontece, porém, que há palavras cuja raiz começa por h e, mesmo assim, aglutinaram-se ao prefixo, eliminado o h etimológico, fazendo perder o hífen, a ponto de contrariar a regra dominante. É o caso de “desumano”, “subumano”, “inábil”, “inumano”, de larga tradição na língua.
1.7.           Emprega-se o hífen com palavras formadas com os prefixos circum- e  pan-, quando a eles se seguem elementos iniciados por vogal, m e n


1.7.1.     com o prefixo circum-: circum-escolar; circum-navegação; circum-murado
1.7.2.     com o prefixo pan-: pan-americano; pan-mágico; pan-negritude



1.8.           Emprega-se o hífen com os prefixos pós-, pré- e pró- com algumas exceções a essa regra:


1.8.1.     com o prefixo pós-: pós-graduação; pós-tônico
1.8.2.     com o prefixo pré-: pré-escolar; pré-datado; pré-natal
1.8.3.     com o prefixo pró-: pró-reitor; pró-europeu; pró-africano
Observação: Diz a regra que tais prefixos se separam por hífen da palavra seguinte porque esta tem vida própria e inconfundível. No entanto, ainda se escrevem “prever” (“ver” tem vida à parte), “pospor” (idem) e “promover” (idem). A explicação deveria ser outra: tais verbos têm larga tradição na língua e sempre se escreveram sem hífen. No caso de “pré-escolar” ou “pró-reitor”, por exemplo, tais termos indiciam alternância de situação e distinção semântica no caso de simultaneidade: existem ao mesmo tempo o “reitor” e o “pró-reitor” e os cargos não se confundem. Da mesma maneira o “escolar” e o “pré-escolar”. Há o cheque “datado” e o “pré-datado”, que podem ser emitidos simultaneamente. Mas não se pode, salvo melhor juízo, “ver” e “prever” ao mesmo tempo, ou “pôr” ou “pospor” ao mesmo tempo e na mesma situação discursiva.



1.9.           Emprega-se o hífen com os prefixos hiper-, inter- e super-, se a eles se seguirem palavras iniciadas pela consoante r:


1.9.1.     com o prefixo hiper-: hiper-requintado
1.9.2.     com o prefixo inter-: inter-racial
1.9.3.     com o prefixo super-: super-revista



1.10.       Emprega-se sempre hífen com o sufixo ex-, desde que o sentido seja o de estado anterior:

1.10.1. é o caso de ex-marido; ex-diretor; ex-presidente; ex-primeiro-ministro
1.10.2. mas não se deve confundir com exterior, explicar ou excomungar (no primeiro e segundo exemplos há a ideia de movimento para fora e o prefixo está devidamente incorporado à raiz dessas palavras, enquanto no terceiro não aparece a ideia de uma situação anterior, mas sim aquela que passa a ser, projetivamente)




1.11.       Os sufixos de origem tupi-guarani como –açu, -guaçu e –mirim separam-se por hífen da palavra que os precede desde que esta termine por vogal acentuada graficamente ou, mesmo sem o acento diacrítico, a palavra tenha uma pronúncia que exija a distinção em relação a tais sufixos:


1.11.1. com o sufixo –açu: andá-açu; capim-açu; jacaré-açu
Observação: Note-se que se deve pronunciar, em “capim-açu”, a palavra “capim” sem fazer a passagem do som nasal para o sufixo (o que daria “capimaçu”, de som estranho, chegando até a dificultar a decodificação imediata do composto e seu significado). Daí, pois, o hífen, a mostrar que não se deve pronunciar fazendo a ligação fonética entre os elementos do composto.
1.11.2.com o sufixo –guaçu: amoré-guaçu
1.11.3. com o sufixo –mirim: anajá-mirim; Ceará-Mirim; Paraná-mirim
Observação: Não se usa hífen em “leitor mirim”, por exemplo, porque nem “leitor” termina por vogal acentuada graficamente (caso de “anajá-mirim”) nem há o risco de ocorrer ligação fonética entre “leitor” e “mirim” (como em “capim-açu”), que são as duas restrições da presente regra.












2. NÃO SE USA O HÍFEN



2.1. Nos casos em que o prefixo termina por vogal e a palavra que se segue começa pelas consoantes r ou s, tais consoantes se dobram:


2.1.1. vogal + consoante r: autorretrato; antirreligioso; Contrarreforma; contrarregra; biorritmo; microrradiografia; radiorrelógio; autorradiografia; arquirrival; antirracional; contrarrazão; antirracial; alvirrubro; antirrevolucionário; anterrosto; suprarrenal

2.1.2. vogal + consoante s: antissocial; autosserviço; minissaia; autossuficiente; antissemita; antisséptico; extrassensorial; pseudossufixo; pseudossigla; multisserviço; contrassenso; autossugestionável; entressafra; ultrassonografia



2.2. Não se usa o hífen também quando o prefixo ou o falso prefixo do composto terminam por uma vogal e o outro elemento começa por vogal diferente ou quando o segundo elemento se inicia com consoante após uma vogal e, ainda, quando tanto o fim do prefixo quanto o início do radical da palavra são consoantes:


2.2.1. vogal + outra vogal: antiaéreo; infraestrutura; extraescolar; radioamador; hidroelétrica; autoinstrução; intrauterino; neoimpressionista; intraocular; megaestrela;

2.2.2. vogal + consoante: inframencionado; hidromassagem; multivitaminado; cardiopulmonar; antiterrorista

2.2.3. consoante + consoante: intermunicipal; hiperdesconto; supermercado
Observação 1: Ao que consta, este item (consoante + consoante) está restrito aos prefixos inter-, hiper- e super-.
Observação 2: Este caso se encontra na Observação 2 do item 1.6.1 deste documento, com ampla exemplificação.
Observação 3: No nome do movimento religioso católico Contrarreforma, como em outras ocorrências em que aparece o “prefixo” preposicional “contra-”, há que se refletir bastante se, nesses casos, se trata mesmo de termo derivado e não de um composto por justaposição. Primeiro, porque a palavra preposição “contra” se acha na língua muitas vezes usada de forma independente, substantivando-se e assumindo a flexão de número do substantivo (como em “Os contras da Nicarágua”); segundo, porque assume valor de raiz, tem matiz semântico, não tendo, pois, o esvaziamento de sentido peculiar a outras preposições, como a preposição “a” ou a “de”. Por falta, pois, de melhor reflexão sobre esse tópico, é de pensar se o melhor — por se poder considerar tal formação um caso de composição — não seria grafar “Contra-Reforma”, tal como era antes do Acordo Ortográfico, assim como, também, “contra-regra”, e não “contrarregra”, como prevê o Acordo, que julga tais palavras, as mencionadas aqui, formas derivadas.
Última observação: O Acordo exige que, na translineação, se deve repetir o hífen no começo da outra linha, por amor à clareza, indicando, assim, que o hífen colocado no fim da linha realmente existe, faz parte de um composto ou de um termo derivado, e não surgiu ocasionalmente por causa de eventual separação silábica em fim de linha.






CONCLUSÕES:


1.      Desde a oficialização do Acordo Ortográfico, vê-se que o hífen é, ainda hoje, mesmo com a reforma, maciçamente empregado e atende a maioria dos casos, havendo apenas sua eliminação em duas situações muito específicas: (1) quando, no caso amplo dos derivados, o prefixo termina por vogal e o segundo elemento se inicia pelas consoantes r e s (caso de “autorretrato” ou “autosserviço”); e (2) quando, entre o prefixo e o segundo elemento, não há coincidência de vogais (“autoestrada”), ou a vogal depara com uma consoante (“anticomunista”), ou simplesmente não há vogais, mas apenas consoantes (“hipermercado”). A ocorrência “longa-metragem” tem hífen porque se trata, sim, de um composto, e não de um derivado. Em princípio, todos os compostos por justaposição têm hífen; já os derivados ora têm, ora não têm.

2.      A dúvida que possa existir quanto à eliminação ou não do hífen se prende, portanto, apenas a casos de derivação prefixal, e não envolve casos de composição por justaposição, em que, em geral, sempre se apresenta hífen (assim, temos, por um lado, os compostos “hispano-americano” e “guarda-roupa” — as exceções seriam “mandachuva”, “paraquedas”, “paralama”, “parachoque” e “paravento” —, claros exemplos de composição por justaposição, enquanto, por outro lado, temos “hipoícone”, sem hífen, e “anti-intelectualismo”, com hífen, termos que exemplificam casos de derivação prefixal).



Fontes bibliográficas usadas para esta sistematização:



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FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. totalmente rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

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LEDUR, Paulo Flávio. Guia prático da nova ortografia. 3. ed. rev. Porto Alegre: AGE, 2009.

LIMA, Roberto Sarmento. Estava à toa na vida. Língua portuguesa. São Paulo: Segmento, ano 2, nº 24, out. 2007, p. 48-50.

MACHADO, Josué. Hora de remarcar os dicionários. Língua portuguesa. São Paulo: Segmento, ano 3, nº 35, set. 2008, p. 28-32.

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MARTINS, Eduardo. Uso do hífen. Barueri, SP: Manole, 2006.

MONTEIRO, José Lemos de. Morfologia portuguesa. 4. ed. rev. e ampl. Campinas: Pontes, 2002.

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NOVO Acordo entra em vigor. Língua portuguesa. São Paulo: Segmento, ano 3, nº 39, jan. 2009, p. 16-17.

TEIXEIRA, Jerônimo. A riqueza da língua. Veja. São Paulo: Abril, ano 40, nº 2.025, 12 set. 2007, p. 88-96.




                                   Maceió, 11 de março de 2008.



                                   Roberto Sarmento Lima